Reminiscência

Reminiscência é o nome dado ao processo de aquisição do conhecimento. Ou melhor, ao processo de relembrar do conhecimento que já foi adquirido. Para Platão, a Alma já compreende em si todo o conhecimento que é necessário, conhecimento este que foi adquirido no mundo das idéias, antes da Alma encanar no corpo material. Portanto, podemos afirmar que Platão trata o conhecimento de forma apriorística e inato. Apriorística porque adquirimos esse conhecimento antes de encarnados, no mundo das idéias temos o contato com as idéias perfeitas, conhecimentos verdadeiros, etc, e inato pois este conhecimento se mantém na Alma, não sendo necessário adquiri-lo depois no mundo material, apenas relembra-lo. Eis o porquê de se chamar “Reminiscência”, pois é o processo de relembrar aquilo que já foi aprendido. Relembrar porque ao adentrar no mundo material, esquecemos. Esquecemos, não perdemos.
"A minha arte obstétrica tem atribuições iguais às das parteiras, com a diferença de eu não partejar mulher, porém homens, e de acompanhar as almas, não os corpos, em seu trabalho de parto."
“0 que é fora de dúvida é que nunca aprenderam nada comigo; neles mesmos é que descobrem as coisas belas que põem no mundo, servindo, nisso tudo, eu e a divindade como parteira.”
Essas frases acima, ditas por Sócrates em Teeto, fazem alusão à reminiscência, e ao conhecimento que já se encontra presente na alma dos indivíduos. Por isso Sócrates se compara à uma parteira, pois sua função, segundo ele, é preparar o individuo para dar à luz ao conhecimento contido em sua alma. Porém, como fica evidente neste trechos, ele só o faz quando o individuo já está preparado para dar à luz, ou seja, quando ele se permite à isso, elevando a alma para o mundo das ideias.
Para a reminiscência acontecer, é necessário ir além de contemplar a aparência das coisas, é necessário se permitir à experiência inteligível, adentrar além do mundo sensível.
Então, podemos resumir a teoria do conhecimento de Platão nesses seguintes pontos:
  1. A alma, contempla todo o conhecimento no mundo das essências.
  2. A alma encarna e esquece daquilo que aprendeu.
  3. A alma se lembra daquilo que aprendeu no mundo das essências.
E assim se dá o processo de conhecimento segundo Platão. O homem começa a relembrar o conhecimento que adquiriu ao adentrar na filosofia, e ele o faz pelo sentimento de nostalgia. O que vemos no mundo material é uma representação do mundo das idéias, e sendo assim, tudo o que vemos neste mundo já nos é familiar. Iniciamos o processo então de reminiscência, pois como este mundo é uma representação do mundo das idéias, acabamos nos familiarizando com tudo o que está a nossa volta, pois já vimos tudo antes.
Simplificando, primeiro temos a sensação, depois o estranhamento, a dúvida, e por fim partimos para a investigação. Você chega na verdade quando vai além dos sentidos, ou seja, chega na essência do objeto. Isso tudo ocorre num processo dialético, onde há a interação com o objeto e o uso do raciocínio e da linguagem.
Mas do que exatamente nos lembramos? Platão explica que o conhecimento da moral, do belo, da matemática, das virtudes e das artes no geral, não poderia ser adquirido em outro lugar senão no mundo das idéias, pois o mundo material em si — a experiência sensível — é insuficiente para adquirir esses conhecimentos tão únicos e objetivos. Se temos então a consciência do que é certo ou não fazer, daquilo que é belo ou feio, daquilo que é igual ou desigual, ou maior e menor, é porque antes aprendemos tudo isso no mundo das essências.
Os diálogos Fédon e Teeto, onde é abordado o tema a respeito da Alma e do conhecimento, nos ajudam a compreender de forma clara as ideias de Platão. Teeto trata de forma mais aprofundada o conhecimento, assim como tema da reminiscência. Em Fédon, a reminiscência é tratada de forma breve, apenas como forma de provar o renascimento, mas ainda assim é possível entender do que se trata este fenômeno, se introduzindo em seu entendimento.
Primeiramente, Sócrates nos explica o que é reminiscência, numa demonstração de que é possível tomar conhecimento de algo — ou melhor, relembrar de algo que esquecemos — tendo contato com outro algo, totalmente dessemelhante. Da mesma forma também que é possível se lembrar de algo ao entrar em contato com algo também semelhante. Por exemplo, podemos nos lembrar de um amigo ao ver um objeto que é dele, sendo que esse objeto de difere totalmente de seu amigo. Da mesma forma, ao ver o retrato de seu amigo, você também se lembra dele, e o retrato se assemelha ao seu amigo. Isso Sócrates chama de reminiscência, como será demonstrado abaixo:
E não sabes o que se passa com os amantes, quando vêem a lira, a roupa, ou qualquer outro objeto de uso de seus amados? Reconhecem a lira e formam no espírito a imagem do mancebo a quem a lira pertence. Reminiscência é isso: ver alguém freqüentemente a Símias e recordar-se de Cebete. Há mil outros exemplos do mesmo tipo.
— Milhares, por Zeus, respondeu Símias.
Não constitui isso, perguntou, uma espécie de reminiscência Principalmente quando se dá com relação a coisa de que poderíamos estar esquecidos, pela ação do tempo ou por falta de atenção.
— Perfeitamente, respondeu.
E então? Continuou: não é possível lembrar-se alguém de um homem, ao ver a pintura de um cavalo ou de uma lira, ou então, ao ver o retrato de Símias, recordar-se de Cebete?
— Muito possível.
E diante do retrato de Símias, lembrar-se do próprio Símias?
— Isso também, foi a resposta.
XIX — E não é certo que em todos esses casos a reminiscência tanto provém dos semelhantes como dos dessemelhantes?
— Provém, de fato.
Logo após esse esclarecimento, Sócrates nos dá um exemplo de reminiscência mais claro, usando o conceito da igualdade. Como foi dito no início do texto, conceitos como da igualdade, do belo, da ética, da moral, etc, não podem ser adquiridos puramente através da experiência sensível, pois além dos nossos sentidos nos limitarem na aquisição do conhecimento, o mundo material é insuficiente para definirmos conceitos tão objetivos como os da beleza, da matemática e da moral. Não estou falando daquilo que é ou não moral, ou do que é ou não feio, muito menos de algo ser ou não igual a outro algo, mas falo a respeito da igualdade em si mesma, assim como a beleza em si mesma. Se temos a capacidade de distinguir, por meio dos sentidos, se algo é ou não igual a outro, ou se é belo ou feio, é porque conhecemos a igualdade em si, e a beleza em si, pois só assim podemos afirmar se algo é ou não belo, igual ou desigual. Portanto, se vemos um objeto que se esforce para ser igual a outro objeto que nos lembramos, ou até mesmo o mesmo objeto, que hora nos pareça igual, hora nos pareça igual, temos assim um processo de reminiscência, pois acabamos nos lembrando da igualdade em si mesma. Vejamos:
Considera, então, se tudo não se passa deste modo. Afirmamos que há alguma coisa a que damos o nome de igual; não imagino a hipótese de que um pedaço de pau ser igual a outro, nem uma pedra a outra pedra, nem nada semelhante; refiro-me ao que se acha acima de tudo isso; a igualdade em si. Diremos que existe ou que não existe?
— Existe, por Zeus, exclamou Símias; à maravilha.
E que também saberemos o que seja?
— Sem dúvida, respondeu.
E onde formos buscar esse conhecimento? Não foi naquilo a que nos referimos há pouco, à vista de um pau ou de uma pedra e de outras coisas iguais, que nos surgiu a idéia de igualdade, que difere delas? Ou não te parece diferir? Considera também o seguinte: por vezes, a mesma pedra ou o mesmo lenho, sem se modificarem, não te afiguram ora iguais, ora desiguais?
— Sem dúvida.
E então? O igual já se te apresentou alguma vez como desigual, e a igualdade como desigualdade?
— Nunca, Sócrates.
Por conseguinte, continuou, não são a mesma coisa esses objeto iguais e a igualdade em si.
— De jeito nenhum, Sócrates.
Não obstante, disse, foi desses iguais, diferentes da igualdade, que concebeste e adquiriste o conhecimento desta última.
— Está muito certo o que afirmaste, disse.
Todo o conhecimento porem, é necessário ser adquirido e algum lugar, e como vimos mais acima, logo no início do texto, para Platão adquirimos esse conhecimento do mundo das ideias. E é isso também que Sócrates argumenta, não que aprendemos o conhecimento no mundo das ideias em si, mas sim que o adquirimos antes de nascer:
É preciso, portanto, que tenhamos conhecido a igualdade antes do tempo em que, vendo pela primeira vez objetos iguais, observamos que todos eles se esforçavam por alcançá-Ia porém lhe eram inferiores.
Logo, antes de começarmos a ver, a ouvir, ou a empregar os demais sentidos,já devemos ter adquirido em alguma parte o conhecimento do que seja a igualdade em si, para ficarmos em condições de relacionar com ela as igualdades que os sentidos nos dão a conhecer e afirmar que estas se esforçam por alcançá-la, porém lhe são inferiores.
— É a consequência necessária, Sócrates, do que foi dito antes.
E não é certo que vemos e ouvimos e fazemos uso dos demais sentidos logo após o nascimento?
— Perfeitamente.
Será preciso, então, é o que afirmamos, já termos antes disso o conhecimento da igualdade.
— Certo.
Antes do nascimento, por conseguinte, ao que parece, é que necessariamente o adquirimos.
— Parece, mesmo.
XX — Logo, se o adquirimos antes do nascimento e nascemos com ele, é porque conhecemos antes do nascimento e ao nascer tanto o igual, o maior e o menor, como as demais noções da mesma natureza. Pois tanto é válido nosso argumento para a igualdade como para o belo em si mesmo e o bem em si mesmo, a justiça, a piedade e tudo o mais, como disse, a que pusemos a marca de O próprio que é, assim nas perguntas que formulamos como nas respostas apresentadas. A esse modo, adquirimos necessariamente antes de nascer o conhecimento de tudo isso.
Após adquirir o conhecimento, esse conhecimento se mantém para sempre na Alma (daí o conceito inatista) e esse conhecimento acaba nunca se perdendo, apenas nos esquecemos dele ao adentrarmos no mundo material. O conhecimento porém, continua contido em nós, e conhecer se torna apenas se torna um processo de relembrar o que já foi adquirido, conservando-o. É por isso que Sócrates usa o termo “perder” no sentido apenas de se esquecer. Pois bem, se esquecemos esse conhecimento ao nascer, e ao longo da vida vamos recuperando esse conhecimento, estamos claramente envolvidos em um processo dialético chamado “reminiscência”. Por fim, o entendimento da reminiscência é concluído:
E se, depois de adquirido tal conhecimento não o esquecêssemos, desde o nascimento o possuiríamos e o conservaríamos toda a vida. Pois conhecer, de fato, consiste apenas no seguinte: conservar o conhecimento adquirido, sem vir nunca a perdê-lo. 0 que denominamos esquecer, Símias, não será precisamente a perda do conhecimento?
— Não será outra coisa, Sócrates, respondeu.
Se, em verdade, segundo penso, antes de nascer já tínhamos tal conhecimento e o perdemos ao nascer, e depois, aplicando nossos sentidos a esses objetos, voltamos a adquirir o conhecimento que já possuíramos num tempo anterior: o que denominamos aprender não será a recuperação de um conhecimento muito nosso? E não estaremos empregando a expressão correta, se dermos a esse processo o nome de reminiscência?
— Perfeitamente.
Pois já se nos revelou como possível, ao percebemos alguma coisa, pela vista ou pelo ouvido, ou por qualquer outro sentido, pensar em outra de que nos havíamos esquecido, mas que se associa com a primeira por parecer-se com ela ou por lhe ser dessemelhante. Desse modo, como disse, uma das duas há de ser, por força: ou nascemos com tal conhecimento e o conservamos durante toda a vida, ou então as pessoas das quais dizemos que aprendem posteriormente, o que fazem é recordar, vindo a ser o conhecimento reminiscência.
— Tudo se passa realmente desse modo, Sócrates.

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