Redescobrindo Sócrates


Redescobrindo Sócrates 




Sócrates não escreveu nada, confiou seu saber somente ao campo da oralidade, por isso a reconstrução do seu pensamento é muito difícil. Em geral, podemos reconstruir a filosofia socrática baseando-se nos múltiplos testemunhos deixados pelos seus discípulos. O problema é que esses testemunhos são parciais, dado que cada discípulo abordou Sócrates e seu pensamento sob uma ótica pessoal, dando atenção apenas aos aspectos filosóficos que lhe interessavam. Giovanni Reale, filósofo contemporâneo, diz que para além dos testemunhos, também devemos análisar as novidades que apareceram na filosofia depois de Sócrates. 

Sócrates e a essência do homem 

Sócrates, insatisfeito com os naturalistas, focou suas análises filosóficas na problemática do homem. Diferente, porém, dos sofistas, chegou ao fundo dessa questão, se aprofundando na temática da "sabedoria humana".

Sócrates procura responder a seguinte questão: qual é a natureza do homem? e a resposta que ele nos dá é: o homem é sua alma, e é sua alma que o distingue de todas as outras coisas. E por alma, Sócrates entende a própria razão, e a sede de nossa atividade pensante e eticamente operante. Em resumo: a alma é o eu consciente, ou seja, a consciência, a personalidade moral e intelectual.

Se a essência do homem é a alma, cuidar de si mesmo significa cuidar mais da alma do que do corpo, e por isso que ensinar os homens a cuidar da própria alma é a tarefa suprema do educador. Não somente a alma é a essência do homem, como também é o verdadeiro o homem, enquanto o corpo é apenas um instrumento do qual a alma se serve. 

Sócrates as virtudes

Como virtude podemos entender aquilo que torna uma coisa boa e perfeita naquilo que ela é, ou então, a atividade que aperfeiçoa cada coisa, fazendo-a ser aquilo que deve ser. Pois então, qual é a virtude do homem? — Socrátes dirá que é a "ciência" ou o "conhecimento", ao passo que o "vício" é a ignorância.

Como a alma está diretamente associada a psyqué, ou seja, a natureza intelectual, os verdadeiros valores não são aqueles ligados ao corpo e suas paixões, mas à alma. Todas as virtudes se submetem dessa forma, à virtude primordial, que é a atividade intelectual da alma: o conhecimento.

A ética socrática

Da doutrina Socrática a respeito da alma derivam duas conclusões éticas:

1) A virtude (cada uma e todas as virtudes) é ciência (conhecimento), e o vício (cada um e todos os vícios) é ignorância. Como a natureza do homem é a alma (razão), e as virtudes são aquilo que aperfeiçoam a natureza do homem, então é evidente que as virtudes sejam ciência e connhecimento, pois é a ciência e o conhecimento que aperfeiçoam a razão.

2) Ninguém peca voluntariamente; quem faz o mal, fá-lo por ignorância do bem. O homem, por sua natureza, procura sempre o bem, quando faz o mal não o faz porque se trate do mal, mas porque espera-se extrair daí um bem. Dizer que o mal é involuntário significa que o homem engana-se ao esperar dele um bem, e que na realidade está cometendo um erro de cálculo. Basta então conhecer o verdadeiro bem para praticá-lo e assim não cometer o mal.

Essas duas bases formam o chamado "intelectualismo ético", que permeou a filosofia grega desde Sócrates à era helenista.

Sócrates acerta quando diz que o conhecimento é condição necessária para fazer o bem (pois não é possível fazer o bem sem conhece-lo), mas peca quando diz que, além de condição necessária, é também condição suficiente. Em suma, Sócrates cai em excesso de racionalismo. Para fazer o bem, além do conhecimento é necessário também o concurso da vontade. Contudo, a vontade só terá devida atenção na filosofia com o surgimento do cristianismo.

O conceito de liberdade e felicidade 

A mais significante manifestação da excelência da psyché humana se dá naquilo que Sócrates chamou de "autodomínio (enkratéia), ou seja, domínio de si mesmo nos estados de prazer, dor e cansaço, no urgir das paixões e dos impulsos. A liberdade é, justamente, "autarquia", ou seja, governo de si mesmo, domínio da racionalidade sobre a animalidade. Livre é aquele que sabe dominar seus instintos, escravo por sua vez é o que se torna vítima deles. 

A felicidade não pode vir das coisas exteriores, do corpo, mas somente da alma, porque esta e só está é a sua essência.

Teologia Socrática



O conceito de Deus em Sócrates se identifica com o conceito de Deus-inteligência ordenadora. É com Sócrates que temos a primeira demonstração racional da existência de Deus.

a) Aquilo que não é simples obra do acaso, mas constituído para alcançar um fim, pressupõe uma inteligência que a produziu por razões evidentes. Ademais, observando o homem, percebemos que cada um e todos os seus órgãos estão constituídos de tal modo que não podem ser absolutamente explicáveis como obra do acaso, mas apenas como obra de uma inteligência que idealizou expressamente essa constituição.

b) Alguns podem se opor a esse argumento afirmando que tal inteligência não se vê. Porém essa objeção não se sustenta, porque nossa alma (inteligência) também não se vê e, mesmo assim, ninguém ousa afirmar que, pelo fato de a alma (inteligência) não ser vista, também não existe, e que fazemos ao acaso (sem inteligência) tudo o que fazemos.

c) Por fim, com base nos privilégios que o homem tem em relação a todos os outros seres, é possível estabelecer que o artífice divino cuidou do homem de modo inteiramente particular.

O argumento acima gira em torno desse núcleo central: o mundo e o homem são constituídos de tal modo (ordem e finalidade) que apenas uma causa adequada (ordenadora, finalizante e, portanto, inteligente) pode explicá-los. "E, com sua ironia Sócrates lembrava àqueles que rejeitavam esse raciocínio que nós possuímos parte de todos os elementos que estão presentes em grandes massas no universo, coisa que ninguém ousa negar; como então poderíamos pretender que nós, homens, nos assenhoreássemos de toda inteligência que existe, não podendo haver nenhuma outra inteligência fora de nós? É evidente a incrongruência lógica dessa pretensão."

Fonte: História da Filosofia, vol I, Filosofia Pagã Antiga ; Giovanni Reale; Dario Antiseri


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